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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Amaury Fernandes de Queiroz, um homem e um exemplo de vida

“Na saudade há a certeza de um reencontro”.

A geografia humana do comércio mossoroense perdeu a figura sem jaça Amaury Fernandes de Queiroz, a 21 de dezembro de 1995. Nasceu em Pau dos Ferros a 22.02.1936, na fazenda “Cantinho”. Era filho de Vicente Fernandez de Queiroz e Benta de Souza Rêgo. 

Detentor de nobreza de quatro costados, era tetraneto do revolucionário Agostinho Pinto de Queiroz, depois Agostinho de Queiroz, depois Agostinho Fernandes de Queiroz (Revolução Republicana de 1817), pelo combate ao homônimo caudilhesco de Pinto Madeira, que ameaçara as fronteiras potiguares. 

O coronel Agostinho (Pinto) Fernandes de Queiroz (1780-1866) foi presença marcante e saliente no movimento pré-independência (1817), que visava libertar o Brasil do absolutismo português, tomando parte ativa na instalação do governo republicano de Portalegre –RN, tendo por isso padecido longos sofrimentos nos cárceres da Bahia, com centenas de companheiros, além do que foram fuzilados, como Frei Miguelinho e muitos outros. 

Nas sequência genealógica, descendia o biografado, pelo lado materno, de Luiz do Rêgo Barreto, governador da Capitania de Pernambuco, tronco dos muitos Rêgos que habitam os sertões nordestinos. 

Menino criado nos banguês de cana-de-açúcar da fazenda “Cantinho”, desde cedo demonstrou profunda competência no ramo comercial, tendo, ainda adolescente, trabalhado na firma Alfredo Fernandes, filial da cidade de Pau dos Ferros. Sentindo que alargavam-se os seus horizontes, passou a residir em Mossoró, onde passou a trabalhar na firma Tertuliano Fernandes, que à época tinha como diretor-comercial o Sr. Francisco de Queiroz Porto (o Jatobá de Ererê). 

O trabalho desenvolvido por Amury caracterizava-se pela preocupação de um pensar exato de cientista (modus mentalis) emoldurando rigorosamente a realidade, o que proporcionava-lhe resultados alvissareiros. 

Como funcionário da “Casa dos Ferros”, do Sr. Antônio Câncio de Souza, galgou vários postos, chegando a gerente. Com o falecimento do seu patrão, assume o controle acionário daquela casa comercial, elevando-a aos patamares do progresso.  

Como trabalhador compulsivo, era exemplo típico dos felizardos intocados por angústias existenciais. No seu exemplo de vida encontramos a certeza de que o trabalho tem sentido porque corresponde a valores na vida das pessoas. 

Homem notável pela franqueza das palavras e pela lealdade das atitudes. A sua travessia pela terra foi fecunda em exemplos, em discrição e em dignidade. Tinha princípios sólidos e ideias firmes, ideias alicerçadas na experiência. Era superior pelo feitio moral, pela formação e pelo conjunto dos atributos e das qualidades de caráter, além de hábil com as palavras e seguro na formulação de raciocínios. 

A Bíblia nos ensina que sofrimento purifica a alma. Partindo desse princípio, pode-se afirmar que Amaury encontra-se numa dimensão espiritual repleta de luz divina. Acompanhei, com pungência, a sua “via crucis”. Em seu olhar encontrava a expressão de uma noite de insônia, provocada pela dor, tinha uma extensão de eternidade. 

Se houvesse um instrumento para registrar o que passasse pela cabeça de um homem acossado por cruel doença, ele não poderia nunca conter todos os seus sentimentos, todas as suas ansiedades, todas as suas interrogações. 

Vi-o morrendo, entregando-se aos poucos, reagindo com uma coragem admirável ao mal que lhe roia a vida. Teve em Salete (sua esposa) a companheira inseparável no amor, no amparo e na abnegação – arraigados na fé com que enfrentava a dura realidade. 

Deixa um grande legado aos filhos – legado de trabalho e de luta por um ideal de vida, esteado em tenacidade e perseverança na busca incontida por melhores dias. 

Era casado com sua prima materna Salete Fernandes de Queiroz, com quem teve os filhos Amaury Fernandes de Queiroz Jr., Marcos Antônio F. de Queiroz, Lucas Noberto F. de Queiroz, Henrique Eduardo F. de Queiroz(falecido) e Alexandre Magno F. de Queiroz.

Por Marcos Pinto – historiador, advogado e membro da Academia Apodiense de Letras.

*Francisco Verissimo - Blog Fatos de Mossoró - Portal Fatos do RN

Coronel Antônio Soares do Couto – Intendente Municipal de Mossoró – 1908-1910

Ainda hoje o comportamento de quem administra a coisa pública, guarda a mesma feição de antigamente. É, portanto, lógico, se entender que as luzes do passado iluminam o presente.

Lá para o ano de 1910, estava o tenente Coronel Antônio Soares do Couto, conforme escritos da Coleção Mossoroense, 2ª Edição, volume XXXI, 1980, prestado contas de sua atuação como Intendente do Município de Mossoró, ao Conselho de Intendente. O relatório sintetizava sua ação administrativa no triênio 1908-1910. Um caprichoso balanço da receita e despesa foi apreciado pelo Conselho de Intendente, relativo ao período de 1908-1910, fundamentado na lei nº 19, de 12.09.1908 e o Regulamento nº 20, de 02.12.1908.

Dos títulos constantes no relatório, o Intendente fez questão de frisar bem a saúde pública. Justificou plenamente a despesa com essa rubrica, a epidemia de sarampo que tomou conta da cidade. Mencionou a ação enérgica do legado da higiene municipal, hoje, naturalmente, o cargo de secretário da saúde, exercido naquela época pelo Dr. Almeida Castro. 
Outra preocupação da administração do Intendente Antônio Soares do Couto foi quanto à urbanização da cidade de Mossoró, uma cidade de clima quente, necessitava, na visão do Intendente, de um planto de tamarineira, algodão do Pará, joazeiro, e em alguns casos, mangueira. Para isso teve a municipalidade de adquirir um moinho importado, comprado da firma Schill e Cia, compra que foi feita numa casa lá no Rio de Janeiro. Era um moinho e uma bomba de aço, com capacidade de extrair 8.000 litros d’água do cacimbão que o Intendente mandou cavar para o abastecimento de água, suficiente para aguar a arborização da cidade. Interessante que para esse mesmo fim teve de ser comprada uma carroça completa, com dois jumentos, para o serviço do abastecimento. 

A instrução pública mereceu cuidados especiais do Intendente. Dizia ele que “jamais será demasiada a atenção que se dispensar a este ramo de serviço publico”. É prova contundente de que a educação mereceu atenção especial. Aos 9 de fevereiro de 1908, foi nomeado o cidadão Bento Praxedes para o cargo de delegado escolar das aulas municipais. 

Foram criadas uma cadeira noturna para o sexo masculino em Mossoró, outra para a localidade de Macambira e mais outra para o povoado de Porto, desta feita para o sexo feminino. De maneira que para atender a essa expansão do ensino municipal, contratou o Intendente os professores: Manuel Teixeira de Holanda, Dona Maria Guará, Marcolino de Melo, Manoel Antônio de Albuquerque, Alcebíades E. de Souza, Francisco Vicente Gomes, Manoel João da Costa, Antônio Matias. Todos eles com atuação na cidade e região do município de Mossoró. 

Um fato marcante na educação, ao tempo do Intendente Antônio Soares do Couto, foi a criação pelo decreto 180 de 15.11.1908, do Exmo. Senhor Governador do Estado, Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros. Essa escola veio impulsionar o ensino no município de Mossoró, por sinal ainda hoje existe. Por ela passaram grandes vultos da cultura mossoroense. 

Por Wilson Bezerra de Moura
Fonte: Jornal Caderno de Domingo, Mossoró.

Francisco Veríssimo - Blog Fatos de Mossoro - Portal Fatos do RN 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O boi de Dr. Chico e o voto de Vingt

As pelejas eleitoras têm deixado um manancial de fatos folclóricos superpostos nos anais do tempo. As pugnas envolveram personagens de diferentes matrizes personalísticos e partidários. Esforços inauditos enalteceram protagonistas que se distinguiram pelo espírito de renúncia. 

O pleito do ano de 1957 revestiu-se de um caráter especial, dado o inusitado fato do líder Vingt Rosado ter reassumido o cargo de prefeito (afastara-se em licença por quase um ano) para, diante uma cidade atônita, lançar e apoiar decisivamente a candidatura do médico Antônio Rodrigues de Carvalho à prefeitura de Mossoró, enfrentando a candidatura do também médico Francisco Duarte Filho. Conta-se, ainda hoje, que neste embate observa-se o emprego virulento da maledicência, da calúnia, da delação, da vingança e toda essa caterva de paixões inimigas da felicidade, acumuladas em alguns expoentes da politicagem de aldeia. A nobre seriedade com que Dr. Chico Duarte respondia aos ataques que lhe eram feitos revelava que era um homem de caráter marcado, de personalidade alheia a condicionamentos eventuais, contrastado com a servil postura de seu opositor. 

A candidatura de Antônio Rodrigues significava o endosso e uma idolatria que confundia coisas distintas e cobria intuitos oligárquicos. Por sua vez a de Dr. Duarte Filho refletia a necessidade de mudança, de adoção de novos métodos administrativos em consonância com os reais anseios populares. 

Naqueles remotos dias a plebe ignara tinha a mente intoxicada pela peçonha do ódio e da paixão, dividindo famílias, inimizando antigos companheiros, num caudal de traições sem precedentes. O médico Duarte Filho descendia de tradicionais estirpes, troncos de colonizadores e homens de negócios que desenvolveram atividades na Ribeira de Santa Luzia de Mossoró. Era um homem filiado à velha escolha das definições partidárias e seriedade dos compromissos assumidos, de atitudes claras e rumos definidos a todos dispensava a fidalguia do trato e a opulência de sua mesa. 

Impressionava o cenário envolvente dos comícios dos dois candidatos. Nas passeatas de Duarte entoava-se, à plenos pulmões a célebre canção do Pisa na Fulô, o povo cantava num ritmo frenético, cadenciado e sincronizado com o forte bater do pé direito do chão (o que provocava intensa poeira) e cantavam: Pisa na fulo, pisa na fulo, Dr Chico pra prefeito e depois pra governador!

No dia da acirrada eleição ouvia-se a mesma canção, com diferente paródia, assim expressa: Pisa na fulo/Escorrega no capim/ comi do boi de Duarte/ mas votei foi em tonhim. 

A quadrinha expressa o fato de que era costume, à época, fornecerem-se almoços aos eleitores no dia da eleição, abatendo-se vários bois para atender à contento o eleitorado de cada um dos candidatos. Nos comícios de Antônio Rodrigues foi adotada, por Vingt, a tática do contágio emocional, deliberando em levar o povo a cantar o hino de sua campanha a prefeito em 1952, reavivando na memória popular o irmão falecido tragicamente há seis anos. E o eleitor de Vingt, que votava em Tonhim cantava fervorosamente: Vingt Rosado surge agora como guia, um condutor/todo povo aplaude e segue / Num tributo a seu valor/ vamos todos para a luta/ uma vez com um homem só/ pela terra brasileira se levante Mossoró!

Duarte Filho tinha, ainda, os velhos compadres que as rusgas e as desinteligências da política não conseguiram superar, nem diminuir a confiança e a estima. Era visível a sua liderança, o bem querer que devotavam-lhe seus eleitores. Genildo Miranda era o seu companheiro de chapa, disputando o cargo de vice-prefeito. Tinha uma verve estonteante. Os seus carismáticos discursos espraiavam intensa identificação junto à mesa eleitoral. Era deveras administrado por todos e querido pela maioria. Punha a condição da serenidade acima das paixões do partidarismo dominante. 

Aproximava-se o dia eleição. O frenesi tomava conta da cidade. Oberva-se que a candidatura de Chico era amplamente acolhida e festejada, com claros sinais de iminente vitória. Há quem diga à boca miúda que, diante da crescente candidatura de Dr. Chico Duarte, preconizando sucesso, iniciou-se um curso sigiloso nos escaninhos da memória maquinal, objetivando pregar uma “brejeira” nas urnas de Baraúna, já que as de Mossoró sinalizava  para uma vitória de Duarte. Diz-se que um determinado tabelião era senhor de uma versatilidade assombrosa no ramo de forjar títulos eleitorais para beneficiar candidatos ligados à situação, agindo em consonância com deliberações preliminares para tal fim. Hiptinotizavam os contrários na degradação abominável dos conchavos. Antônio Rodrigues era candidato entregue absolutamente ao personalismo dos homens do poder. 

Diante as movimentações eleitorais escusas, pressentia-se o degringolar da derrota de Dr. Duarte. Apurada às urnas de Baraúna, houve reiteração a tese dos “arranjos” que se aprestaram às escondidas para garantir a vitória de Antônio Rodrigues. 

O embate eleitoral de 1957 em Mossoró, fez escola, Aluízio Alves, tendo tomado ciência da “brejeira” nas urnas de Baraúna, utilizou-se desse mesmo “artifício” para em 1968, infligir derrota à Vingt-um. 

Rosado, beneficiando assim, outra vez, o Sr. Antônio Rodrigues de Carvalho. 

“Não há amigos nem inimigos políticos em se largando o mando e as pretensões a ele”. 

Por Marcos Pinto – historiador e advogado

NOTA DO BLOG: A eleição à que se refere o artigo acima ocorreu no ano de 1958, e não em 1957. 

*Francisco Verissimo - Blog Fatos de Mossoró - Portal Fatos do RN